sábado, 7 de janeiro de 2017

O POUSO DO “BUENOS AIRES” EM BARRA DO CUNHAÚ



O hidroavião em Barra do Cunhaú


image003No dia 24 de maio de 1926, decolava da base aeronaval americana de Miller Field, em Nova York, um hidroavião Savoia-Marchetti S 59, pintado com as cores azul e branco, sendo conduzido por três ocupantes e seguindo em direção sul, estava decolando o “Buenos Aires”. 

O Projeto de um Herói da Aviação na Primeira Guerra Mundial 

A ideia desta viagem tivera início em 1925 e tinha como objetivo abrir uma rota aérea para futuros voos com passageiros. Os autores desta ideia foram os pilotos Eduardo Olivero, e Bernardo Duggan.

Olivero nasceu em 2 de novembro de 1892, em Tandil, uma cidade argentina localizada na província de Buenos Aires, a cerca de 350 km da capital do país. Ele era filho de italianos emigrados para o país platino e durante a Primeira Guerra Mundial utilizou-se de sua segunda nacionalidade para lutar entres as tropas italianas, atuando na função de piloto de combate. Ascendeu ao posto de tenente na denominada “Esquadrilha Baracca” e completou 553 voos de combate. Destes voos 156 foram missões de caça, 262 patrulhas de combate, 61 escoltas de reconhecimento e de aviões de bombardeio. 11 missões de reconhecimento estratégico, 14 missões de ataque terrestre contra concentrações de infantaria austríacos e
uma missão para derrubar um balão de observação do tipo Draken. Documentos apontam que Olivero participou de 25 combates aéreos, em que derrubou nove aviões inimigos. No fim da guerra é promovido a capitão.



Entre o fim da Primeira Guerra e o ano de 1924 Olivero participa de diversos raids aéreos na Argentina e experiências de voo em grande altitude, visando um melhor aproveitamento aéreo sobre a Cordilheira do Andes. Em uma delas sofreu um grave acidente que lhe deixou sequelas. Em 1924 realiza diversas experiências com radiofonia aérea. Em 1925 inicia os preparativos, junto com Duggan, do Raid aéreo Nova York – Buenos Aires.
Por aqueles dias a incipiente rota Nova York – Buenos Aires era uma das mais difíceis, recheada de inconvenientes e problemas, principalmente diante das características técnicas dos aviões existentes na época. Olivero e Duggan, concluíram que, para terem um melhor êxito deveriam tentar repetir o trajeto realizado pelo tenente do Corpo de Aviadores dos Estados Unidos, Walter Hinton. Vale lembrar que Hinton, junto com o brasileiro Euclides Pinto Martins, haviam partido, em 1922, da mesma Nova York, em direção ao Rio de Janeiro, no hidroavião Curttis, batizado como “Sampaio Correa”, sendo esta a primeira aeronave a voar sobre o território potiguar. O americano, o brasileiro e mais três tripulantes conseguiram realizar o seu intento, mesmo com muitos problemas.

Com os dados das viagens de Hinton, os argentinos começaram a traçar a sua rota. Decidiram, como a maioria dos aviadores da época, por utilizar um hidroavião. Concluíram que a aeronave ideal seria o Savoia-Marchetti S 59.
Na Itália, acompanham a construção e entrega de sua aeronave que contava com motores de 400hp de potência, a portentosa velocidade máxima de 176 km/h, autonomia de 1.400 km e uma carga de total de 900 litros de combustível. Isso tudo sem rádio e outras máquinas de apoio ao voo.
Finalmente o hidroavião é completado com as tradicionais cores nacionais argentinas e despachado através de navio para Nova York. Neste momento junta-se aos dois argentinos Julio Campanelli, executando o trabalho de mecânico. 

Partindo da Terra do Tio Sam 
Nos Estados Unidos são tratados com honras, recebendo apoio incondicional das autoridades locais, inclusive com liberação de aterrissagem em bases americanas durante o trajeto.


Realizam várias provas e no dia 24 de maio de 1926, decolam em direção sul, com a primeira parada será em Chaleston, no estado da Carolina do Sul, depois Miami, seguindo para Havana, em Cuba. Neste país passam ainda pelas cidades de Cienfuegos e Guantanamo. Depois seguem para Porto Príncipe, no Haiti, aonde são ovacionados por grandes multidões, depois Santo Domingo, na Republica Dominicana, seguindo na seqüência para San Juan (Porto Rico), Ilhas Virgens, Montserrat, Guadalupe, Martinica e Trinidad e Tobago. Neste ponto deixam de sobrevoar as paradisíacas ilhas caribenhas e atingem a América do Sul pela Guiana Inglesa (atual Guiana), chegando a capital Gorgetown, depois Paramaribo, na Guiana Holandês (atual Suriname), em seguida Caiena, na Guiana Francesa. A partir deste ponto ocorreria o incidente mais grave de todo o trajeto.
Existem duas versões para o que aconteceu com o hidroavião ao sobrevoar o trecho Caiena – Belém.
Uma delas afirma que o “Buenos Aires” teve um problema no motor e teve que pousar no Oceano Atlântico, de frente as costas brasileiras, sendo resgatados por um pequeno barco pesqueiro, o “Juruna”, que os reboca para uma ilha, na qual o mecânico Camapanelli pode consertar a aeronave e seguirem para Belém.
A outra versão afirma que as faltas de mapas detalhadas da região para uma melhor navegação, além de chuvas torrenciais, fazem a tripulação do “Buenos Aires”, aparentemente, perder seu rumo, pois os mesmos se vêm com uma completa falta de combustível, tendo que pousar em um rio da região aonde os pilotos são resgatados pelo mesmo “Juruna”. O certo é que durante alguns dias o mundo desconhece o paradeiro dos três argentinos, preocupando todos que acompanhavam o raid, Após os sete dias de parada eles seguem para Belém e lá são recepcionados como heróis.
Na continuidade do seu trajeto no Brasil seguiram a costa norte brasileira em direção ao Rio Grande do Norte e no dia 11 de julho de 1926 pousam no Rio Curimataú, na praia de Barra do Cunhaú. Mas apenas sobrevoaram Natal as 11:20 da manhã, do dia 11 de julho de 1926. 

A segunda aeronave em céus potiguares 
Qual teria sido a razão dos argentinos terem ido direto para Barra do Cunhaú e não para a capital?
Natal (30.000 habitantes na época) possuía razoáveis serviços de apoio e o Rio Potengi era uma ótima opção para pouso, mas provavelmente neste ponto de uma viagem já bem atrasada, os aviadores tenham decidido utilizar os mesmos locais de pouso e trajeto realizados no mês de janeiro do mesmo ano, pela tripulação espanhola do Dornier Val “Plus Ulta”, que concluirá seu raid Espanha – Argentina, em 10 de fevereiro de 1926. Apesar de Olivero e Duggan não estarem na Argentina no momento da chegada dos espanhóis, foi repassado a eles o roteiro dos pousos do aeroplano espanhol em terras brasileiras. Nesse caso Recife, e não Natal, era o destino normal após a decolagem do Ceará. Outra razão poderia ser creditada a falta de um conhecimento mais apurado das qualidades de Natal como destino. Recife, por ser uma cidade mais desenvolvida e conhecida no exterior naquele período, era o destino mais correta para os pioneiros aviadores. Vale lembrar que o raid dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, mesmo após os acidentes ocorridos no trajeto, seguiram direto para Recife.
Quem tem a oportunidade de voar sobre a costa potiguar, entre a
Natal e a fronteira da Paraíba, percebe que além do Rio Potengi e da Lagoa de Guaraíras, o Rio Curimataú, que desemboca em Barra do Cunhaú, é um dos melhores pontos para o pouso de um hidroavião. Devido a estes fatos, parece-nos razoavelmente possível acreditar que, neste período (primeira metade do ano de 1926), Natal ainda não gozava de todo reconhecimento e prestígio no meio aviatório mundial. Fato que mudaria consideravelmente já no ano de 1927.

Na bela região de Barra do Cunhaú os aviadores receberam total apoio do coronel Luiz José Gomes (Major Lula), chefe político da época em Canguaretama, e só seguiram viagem na manha de 13 de julho. Eles partiram para Cabedelo, na Paraíba, depois Recife, Maceió e Aracaju. Na sequência realizaram um percurso mais longo até a cidade litorânea de Prado, na Bahia, pousando no rio Jucuruçu. De Prado, seguem para o Rio de Janeiro, Santos, Cananéia, Florianópolis e Porto Alegre.
Na capital gaúcha Olivero recebe a notícia que fora promovido a major do exército italiano. Apenas outra jogada de marketing do histriônico ditador italiano Benito Mussolini, aproveitando as manchetes mundiais sobre este voo.
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Depois do Brasil, os argentinos seguem para Montevidéu e depois a Buenos Aires. São escoltados na chegada pelo hidroavião espanhol Dornier Val “Plus Ultra”, orbitam sobre a capital Argentina e pousam com suavidade no Rio da Prata, tendo percorrido 14.856 km, em 114 horas de voo efetivo. A cidade parou para receber os seus heróis, tendo muitas bandeiras nos edifícios e muitas autoridades presentes no desembarque dos aviadores.
Atualmente o Museu do Forte Independência, em Tandil, guarda peças históricas do mais importante raid argentino de longa duração. 

– Dedico este texto ao amigo German Zaunseder, compatriota dos aviadores do “Buenos Aires” e um grande pesquisador da aviação potiguar e da Segunda Guerra Mundial em Natal, cidade em que decidiu viver com muita satisfação.
Texto de autoria de Rostand Medeiros 
Copiado do site Tok de História
https://tokdehistoria.com.br/2014/11/28/o-pouso-do-buenos-aires-em-barra-de-cunhau/

sábado, 4 de junho de 2016

COROA DA IMAGEM DA PADROEIRA DO BRASIL VAI GANHAR UM GRÃO DE AREIA DO CUNHAÚ


Uma missa, no domingo, 5 de junho, às 18 horas, na Catedral Metropolitana, marcando a peregrinação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, na Arquidiocese de Natal. Nessa celebração, será entregue uma porção de terra ao missionário redentorista, Padre Evaldo César, de Aparecida (SP). Dela, será tirado um grão para compor a coroa de Nossa Senhora Aparecida, que está sendo confeccionada por ocasião dos 300 anos em que a imagem foi encontrada no Rio Paraíba, no interior de São Paulo, em 1717. A coroa vai conter grãos de areia de todos os estados do Brasil.
No Rio Grande do Norte, a areia será proveniente de três lugares: Cunhaú, no município de Canguaretama; Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante; e do Rio Potengi, em Natal, onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora da Apresentação, padroeira da Arquidiocese, em 1753.
A missa, nesse domingo, será presidida pelo Arcebispo de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha; concelebrada pelos arcebispos eméritos, Dom Heitor de Araújo Sales e Dom Matias Patrício de Macêdo; pelo bispo de Mossoró, Dom Mariano Manzana, e pelo bispo de Caicó, Dom Antônio Carlos Cruz; além de padres da Arquidiocese de Natal e do Padre Evaldo César, de Aparecida (SP). A celebração será transmitida pela TV Aparecida.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Forte da Barra do Rio Cunhaú



Os franceses também exploraram o território de Canguaretama, mais precisamente o litoral entre Barra do Cunhaú e Baía Formosa. Eles comercializaram madeiras e peles com os nativos locais. Para isso, tentavam manter um bom relacionamento com os indígenas da região.
Além destes, por volta 1550[1], alguns marinheiros da cidade de Dunquerque estiveram nessa costa e encalharam na foz do rio Cunhaú. À espera de resgate, construíram um abrigo com pedras que encontraram nas proximidades. Essa construção se transformou no Forte da Barra, que foi a primeira obra arquitetônica dos europeus em solo potiguar.
Aproveitado por portugueses e holandeses, esse reduto militar possuía forma quadrangular dupla, com muralhas que chegavam a três metros de altura e ficava numa encosta. No local havia dez canhões e dois arcabuzes de forquilha num fosso circundado de paliçada e serviu de defesa para o engenho Cunhaú, a dezoito quilômetros de distância.
Durante a invasão holandesa, o forte foi atacado duas vezes, em 1634. A primeira tentativa em abril e a segunda, em outubro, que ocasionou sua tomada. Depois de muita luta, os holandeses saquearam o local, mas a embarcação naufragou na saída da barra.
O mercenário inglês Cuthbert Pudsey, em suas memórias, chama este forte de Maranhão em provável alusão ao dono do engenho Cunhaú e também governador da capitania, Antônio de Albuquerque Maranhão. O tempo quase apagou os vestígios do Forte da Barra, que ficava à margem esquerda da embocadura do rio Cunhaú, próximo a uma falésia, onde foram construídas as casas de veraneio da família Villarim e Calafange.


[1] Essa é uma data aproximada baseada em Augusto Fausto de Sousa. Já Olavo de Medeiros Filho aponta o ano de 1634.
Foto ilustrativa.

Os nativos que habitavam a região de Canguaretama



Na época inicial da colonização a região em que se encontra Canguaretama era habitada por nativos da etnia tupi, o povo potiguar. Eles estendiam seus domínios por todo o litoral da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Segundo os relatos da época da colonização, essa etnia exibia um bom porte físico e altura acima de 1,65m. Tinham características mongólicas com olhos pequenos e amendoados, orelhas grandes e cabelos lisos; arrancavam os pêlos da barba, pestanas e sobrancelhas. Andavam nus, mas cobriam-se com peles de animais dependendo da época do ano. Pescavam, caçavam, cultivavam a mandioca, o milho e outros vegetais. Com canoas, navegavam os vários rios da região.
Entre esses nativos havia a tribo Paiaguá, que ocupava a região dos municípios de Canguaretama, Vila Flor, Pedro Velho, Várzea e Espírito Santo. Paiaguá era uma tribo lendária de hábeis canoeiros que teria vindo do Paraguai. Em Canguaretama existe a localidade do Paraguai, que os mais antigos chamavam de Paraguá. Nesse local teria existido a tribo Paiaguá. Esse povo deveria falar o guarani, língua muito próxima ao tupi. Há notícias que na região de onde vieram os paiaguá, na bacia do rio Paraguai, também existiriam os topônimos semelhantes aos de Canguaretama.
Outro núcleo indígena, denominado Gramació, existiu onde é hoje a atual cidade de Vila Flor. Essa aldeia aparece, com o nome de Ramaciot, em um mapa francês do ano de 1579. Foram eles que fizeram os primeiros contatos com os europeus. Por causa de uma possível aliança com os franceses, esses nativos foram dizimados por volta do ano 1600.
Gramació reaparece em 1700, quando os indígenas receberam uma légua quadrada de terra, dada pela Coroa portuguesa para um aldeamento. Foi nessa área que se implantou a Missão de Gramació, onde moravam nativos que falavam tupi, aldeados por padres católicos.
A etnia tapuia também esteve presente em nosso território, pois a bacia do rio Curimataú era área de transição dos territórios tupi e tapuia. Em épocas especiais, muitos nativos deixavam o



sertão e se aproximavam do litoral em busca de alimentos. Entretanto, a fixação deste segundo grupo ocorreu pela utilização da mão-de-obra barata para os portugueses que possuíam terras no litoral.
Não há registro claro da escravidão desses tapuia, mas é bem provável que este tenha sido o motivo da transferência deles para uma aldeia na região de Canguaretama. A Aldeia de São João da Ribeira do Cunhaú foi implantada em 1702, situando-se onde hoje é a localidade de Lagoa de São João. A aldeia era povoada por indivíduos da tribo Canindé, trazidos do sertão depois dos conflitos da Guerra do Bárbaro.
Em 1787, André de Albuquerque Maranhão pediu aforamento do Sítio Torre, que deveria ser o suposto local desse antigo aldeamento. Devido a problemas entre a família Albuquerque Maranhão e os índios que habitavam a região, deduz-se que o ato foi proposital para possibilitar a retirada dos indígenas que não queriam se submeter ao poder do proprietário de terra.
É importante acrescentar que esses índios tinham costumes seminômades, o que faz dessas localizações meras especulações, pois uma mesma tribo mudava de local de acordo com as necessidades. O comum era que se fixassem num local por dois anos e, quando escasseavam os recursos, os índios buscavam outro lugar para reconstruir a aldeia.

A Pré-história em Canguaretama



São raros os trabalhos de pesquisa científica que se refiram à pré-história de Canguaretama. Os que existem são quase desconhecidos pela maioria dos historiadores. Por esse motivo, as informações vêm de fontes empíricas e deduções feitas a partir de estudos em outras localidades.
O litoral sul do Rio Grande do Norte foi povoado por volta do ano 10.000 a.C. com uma população pequena e pouco conhecida. Vivendo no litoral, se alimentavam principalmente de peixes e crustáceos, mas também coletavam frutos e caçavam pequenos animais. Eram povos nômades ou seminômades que já utilizavam o fogo e viviam em pequenos grupos familiares de 10 a 20 indivíduos.
Foi nessa época que ocorreu a última glaciação, conhecida também como a era do gelo. O oceano estava, então, 150 metros mais baixo e recuado pelo menos 1500 metros da margem atual. Por esse motivo, muito dos vestígios pré-históricos podem estar submersos nas águas do litoral. Ainda existia, nesse mesmo período, a megafauna, com a presença de grandes animais
pré-históricos como o bicho-preguiça gigante, o mastodonte e o tigre-dente-de-sabre. No geral, o clima era mais frio e seco, porém, há a possibilidade da existência de uma densa floresta nas margens dos rios, onde a temperatura e umidade poderiam ser mais altas.
A primeira população pré-histórica deveria ter características físicas diferentes dos nativos atuais, e possivelmente eram negroides, mas desapareceram com a chegada das etnias atuais. A etnia tupi tem características físicas diferentes, são mongolóides, e chegaram à região por volta do ano 1.000. Possivelmente a ação guerreira do povo tupi tenha dizimado as populações anteriores ou os tenha afastado do litoral. Suspeita-se que o uso de armas, como o arco e flecha, proporcionou superioridade aos tupi[1], que em situações de guerra teriam exterminado os paleoíndios.


[1] Conforme a Convenção para a grafia dos nomes tribais, de 1953, as denominações indígenas não sofrem flexão de número ou gênero.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A VELHA MARIA CUNHAÚ DO ENGENHO OUTEIRO



MARIA CUNHAÚ
Francisco Galvão
Sociólogo

Entre os membros da famosa família Maranhão do engenho Cunhaú existiu uma senhora que o povo contava histórias que o tempo guardou. Seu nome de registro já nem importa muito, pois de Maria Cunhaú ficou conhecida por todos. Sobrinha do histórico André de Albuquerque Maranhão, vivia de arengas com o irmão, Dendé Arcoverde, herdeiro das fortunas do Cunháu.
É muito interessante como esses personagens da aristocracia açucareira do século XIX foram tratados pela memória popular e chegaram até os livros acadêmicos pelas letras de Câmara Cascudo. O intelectual era fã dessa Família aristocrática que dominou o litoral sul do Rio Grande do Norte, mas repetiu as mesmas palavras que ouviu dos populares em sua Actas Diurnas, quando tratou daqueles membros mais arquétipos.
Maria Cunhaú se tornou famosa no meio da plebe miúda pela soberba exagerada que ostentava. Dona do engenho Outeiro, terra que herdou do tio poderoso. As línguas afirmam que ela não vestia a mesma roupa duas vezes e vivia com melindres ásperos de uma entediada princesa em sua casa-grande inacessível aos pequenos. Era lá que ela judiava dos seus escravos domésticos para se divertir. Os escravos do eito não passavam nem por perto de sua macabra cozinha.
Sem preocupações profundas, ela foi avançando na idade. Nunca encontrou um varão que lhe domasse. Suas preocupações era comer e dormir sem incômodos. Em suas viagens curtas por seus domínios, seu cocheiro apanhava mais que os cavalos que puxavam a charrete. Internou-se em sua própria ignorância, vivendo isolada em seu próprio mundo.
O irmão afirmava que ela era louca e não tinha condições de administrar a propriedade que possuía. Por isso pediu na justiça o direito de posse sobre as terras da irmã. O caso fez com ela ficasse mais perturbada ainda. Dizem que ela deixava os escravos pregados pelas orelhas no portal de trás e gritava esbaforada por eles na varanda da frente.
Gostava de ser atendida, gostava de mandar e, por isso, morria de medo de perder as terras que possuía nas lamacentas várzeas de Canguaretama. Quando lembrava que podia perde tudo, se desesperava e era sua escravaria que sofria as consequências diretas. Havia choro, ranger de dentes, fogo e dor. As marcas ficavam no corpo e todos seus escravos possuíam sinais claros de suas torturas.
Ficava desesperada com a situação, mas nem seu advogado conseguia reverter o processo de perda das terras para o seu irmão. No século XIX uma mulher solteira não teria chances nos tribunais machistas e opressores. O advogado de Maria Cunhaú era Amaro Cavalcanti, um jovem muito talentoso na política, mas que via a situação de sua cliente se agravar nos tribunais.
Ele entendia bem do Direito e sabia perfeitamente que a velha perderia as terras para o irmão. Por esse motivo, ele fez um último e admirável esforço para reverter toda aquela situação adversa. Astucioso que era, foi até o engenho Outeiro e se ofereceu em casamento para a velha. Convenceu-lhe que, desse modo, ficaria como tutor legítimo dela e que, só assim, salvaria suas posses da ganância do irmão.
Ela teria aceitado sem nenhuma relutância. O advogado de fino trato agia de forma exemplar e encantadora, levando a velha ao êxtase. Ela não poderia se negar, mas se envolveu profundamente com aquele galã adorável. O trato era bem elaborado, mas dentro de um acordo simples: ele seria um marido sem exercer as funções nupciais.
Ela morrida de ciúmes e fazia sofrer as escravas jovens. Quebrava os dentes das coitadas para que não atraíssem o olhar do jovem príncipe que surgia naquelas terras. Marcou com ferro em brasa o rosto de cada uma para arrancar-lhe a beleza. Ficava admirando os presentes que recebia, espalhando vestidos sobre a cama que dormia solitária. Em seu ócio improdutivo ficava brincando com dinheiro velho, suas moedas carcomidas pela passagem dos anos.
O advogado nunca morou com a velha. Apenas esperou, pacientemente, seu falecimento para herdar a propriedade. Ficava a lhe agraciar, de longe, com presentes que ela acumulava na casa-grande do engenho. Dizem que ele foi embora para morar com a tal “Ressuscitada” no capital do império, onde viveu como um príncipe, quem sabe com as moedas que Maria Cunhaú guardou por tanto tempo.  
Esse arquétipo de mulher sádica não foi único no Rio Grande do Norte. Em Ceará Mirim, outro centro de produção açucareira, tivemos uma figura feminina que infringia os mesmos castigos físicos aos seus escravos. Em seu porão, ela sempre tinha um escravo para torturar. A senhora do engenho Timbó era tão cruel e desumana com seus escravos, que outros proprietários de engenhos e de terras se revoltaram com sua prática.
A senhora faleceu repentinamente e seu corpo se transformou em uma serpente. Seu túmulo, devido as grandes rachaduras, teria sido acorrentado para manter a serpente presa. Seu esposo, que temia sua crueldade, mudou seus hábitos com os empregados.
Maria Cunhaú foi um arquétipo entre os senhores de escravos no Litoral Sul e que encontra parâmetros em outros locais. Fruto da oralidade fantástica de um povo que contava sua versão de história como forma de resistir.