sábado, 4 de junho de 2016

COROA DA IMAGEM DA PADROEIRA DO BRASIL VAI GANHAR UM GRÃO DE AREIA DO CUNHAÚ


Uma missa, no domingo, 5 de junho, às 18 horas, na Catedral Metropolitana, marcando a peregrinação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, na Arquidiocese de Natal. Nessa celebração, será entregue uma porção de terra ao missionário redentorista, Padre Evaldo César, de Aparecida (SP). Dela, será tirado um grão para compor a coroa de Nossa Senhora Aparecida, que está sendo confeccionada por ocasião dos 300 anos em que a imagem foi encontrada no Rio Paraíba, no interior de São Paulo, em 1717. A coroa vai conter grãos de areia de todos os estados do Brasil.
No Rio Grande do Norte, a areia será proveniente de três lugares: Cunhaú, no município de Canguaretama; Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante; e do Rio Potengi, em Natal, onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora da Apresentação, padroeira da Arquidiocese, em 1753.
A missa, nesse domingo, será presidida pelo Arcebispo de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha; concelebrada pelos arcebispos eméritos, Dom Heitor de Araújo Sales e Dom Matias Patrício de Macêdo; pelo bispo de Mossoró, Dom Mariano Manzana, e pelo bispo de Caicó, Dom Antônio Carlos Cruz; além de padres da Arquidiocese de Natal e do Padre Evaldo César, de Aparecida (SP). A celebração será transmitida pela TV Aparecida.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Forte da Barra do Rio Cunhaú



Os franceses também exploraram o território de Canguaretama, mais precisamente o litoral entre Barra do Cunhaú e Baía Formosa. Eles comercializaram madeiras e peles com os nativos locais. Para isso, tentavam manter um bom relacionamento com os indígenas da região.
Além destes, por volta 1550[1], alguns marinheiros da cidade de Dunquerque estiveram nessa costa e encalharam na foz do rio Cunhaú. À espera de resgate, construíram um abrigo com pedras que encontraram nas proximidades. Essa construção se transformou no Forte da Barra, que foi a primeira obra arquitetônica dos europeus em solo potiguar.
Aproveitado por portugueses e holandeses, esse reduto militar possuía forma quadrangular dupla, com muralhas que chegavam a três metros de altura e ficava numa encosta. No local havia dez canhões e dois arcabuzes de forquilha num fosso circundado de paliçada e serviu de defesa para o engenho Cunhaú, a dezoito quilômetros de distância.
Durante a invasão holandesa, o forte foi atacado duas vezes, em 1634. A primeira tentativa em abril e a segunda, em outubro, que ocasionou sua tomada. Depois de muita luta, os holandeses saquearam o local, mas a embarcação naufragou na saída da barra.
O mercenário inglês Cuthbert Pudsey, em suas memórias, chama este forte de Maranhão em provável alusão ao dono do engenho Cunhaú e também governador da capitania, Antônio de Albuquerque Maranhão. O tempo quase apagou os vestígios do Forte da Barra, que ficava à margem esquerda da embocadura do rio Cunhaú, próximo a uma falésia, onde foram construídas as casas de veraneio da família Villarim e Calafange.


[1] Essa é uma data aproximada baseada em Augusto Fausto de Sousa. Já Olavo de Medeiros Filho aponta o ano de 1634.
Foto ilustrativa.

Os nativos que habitavam a região de Canguaretama



Na época inicial da colonização a região em que se encontra Canguaretama era habitada por nativos da etnia tupi, o povo potiguar. Eles estendiam seus domínios por todo o litoral da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Segundo os relatos da época da colonização, essa etnia exibia um bom porte físico e altura acima de 1,65m. Tinham características mongólicas com olhos pequenos e amendoados, orelhas grandes e cabelos lisos; arrancavam os pêlos da barba, pestanas e sobrancelhas. Andavam nus, mas cobriam-se com peles de animais dependendo da época do ano. Pescavam, caçavam, cultivavam a mandioca, o milho e outros vegetais. Com canoas, navegavam os vários rios da região.
Entre esses nativos havia a tribo Paiaguá, que ocupava a região dos municípios de Canguaretama, Vila Flor, Pedro Velho, Várzea e Espírito Santo. Paiaguá era uma tribo lendária de hábeis canoeiros que teria vindo do Paraguai. Em Canguaretama existe a localidade do Paraguai, que os mais antigos chamavam de Paraguá. Nesse local teria existido a tribo Paiaguá. Esse povo deveria falar o guarani, língua muito próxima ao tupi. Há notícias que na região de onde vieram os paiaguá, na bacia do rio Paraguai, também existiriam os topônimos semelhantes aos de Canguaretama.
Outro núcleo indígena, denominado Gramació, existiu onde é hoje a atual cidade de Vila Flor. Essa aldeia aparece, com o nome de Ramaciot, em um mapa francês do ano de 1579. Foram eles que fizeram os primeiros contatos com os europeus. Por causa de uma possível aliança com os franceses, esses nativos foram dizimados por volta do ano 1600.
Gramació reaparece em 1700, quando os indígenas receberam uma légua quadrada de terra, dada pela Coroa portuguesa para um aldeamento. Foi nessa área que se implantou a Missão de Gramació, onde moravam nativos que falavam tupi, aldeados por padres católicos.
A etnia tapuia também esteve presente em nosso território, pois a bacia do rio Curimataú era área de transição dos territórios tupi e tapuia. Em épocas especiais, muitos nativos deixavam o



sertão e se aproximavam do litoral em busca de alimentos. Entretanto, a fixação deste segundo grupo ocorreu pela utilização da mão-de-obra barata para os portugueses que possuíam terras no litoral.
Não há registro claro da escravidão desses tapuia, mas é bem provável que este tenha sido o motivo da transferência deles para uma aldeia na região de Canguaretama. A Aldeia de São João da Ribeira do Cunhaú foi implantada em 1702, situando-se onde hoje é a localidade de Lagoa de São João. A aldeia era povoada por indivíduos da tribo Canindé, trazidos do sertão depois dos conflitos da Guerra do Bárbaro.
Em 1787, André de Albuquerque Maranhão pediu aforamento do Sítio Torre, que deveria ser o suposto local desse antigo aldeamento. Devido a problemas entre a família Albuquerque Maranhão e os índios que habitavam a região, deduz-se que o ato foi proposital para possibilitar a retirada dos indígenas que não queriam se submeter ao poder do proprietário de terra.
É importante acrescentar que esses índios tinham costumes seminômades, o que faz dessas localizações meras especulações, pois uma mesma tribo mudava de local de acordo com as necessidades. O comum era que se fixassem num local por dois anos e, quando escasseavam os recursos, os índios buscavam outro lugar para reconstruir a aldeia.

A Pré-história em Canguaretama



São raros os trabalhos de pesquisa científica que se refiram à pré-história de Canguaretama. Os que existem são quase desconhecidos pela maioria dos historiadores. Por esse motivo, as informações vêm de fontes empíricas e deduções feitas a partir de estudos em outras localidades.
O litoral sul do Rio Grande do Norte foi povoado por volta do ano 10.000 a.C. com uma população pequena e pouco conhecida. Vivendo no litoral, se alimentavam principalmente de peixes e crustáceos, mas também coletavam frutos e caçavam pequenos animais. Eram povos nômades ou seminômades que já utilizavam o fogo e viviam em pequenos grupos familiares de 10 a 20 indivíduos.
Foi nessa época que ocorreu a última glaciação, conhecida também como a era do gelo. O oceano estava, então, 150 metros mais baixo e recuado pelo menos 1500 metros da margem atual. Por esse motivo, muito dos vestígios pré-históricos podem estar submersos nas águas do litoral. Ainda existia, nesse mesmo período, a megafauna, com a presença de grandes animais
pré-históricos como o bicho-preguiça gigante, o mastodonte e o tigre-dente-de-sabre. No geral, o clima era mais frio e seco, porém, há a possibilidade da existência de uma densa floresta nas margens dos rios, onde a temperatura e umidade poderiam ser mais altas.
A primeira população pré-histórica deveria ter características físicas diferentes dos nativos atuais, e possivelmente eram negroides, mas desapareceram com a chegada das etnias atuais. A etnia tupi tem características físicas diferentes, são mongolóides, e chegaram à região por volta do ano 1.000. Possivelmente a ação guerreira do povo tupi tenha dizimado as populações anteriores ou os tenha afastado do litoral. Suspeita-se que o uso de armas, como o arco e flecha, proporcionou superioridade aos tupi[1], que em situações de guerra teriam exterminado os paleoíndios.


[1] Conforme a Convenção para a grafia dos nomes tribais, de 1953, as denominações indígenas não sofrem flexão de número ou gênero.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A VELHA MARIA CUNHAÚ DO ENGENHO OUTEIRO



MARIA CUNHAÚ
Francisco Galvão
Sociólogo

Entre os membros da famosa família Maranhão do engenho Cunhaú existiu uma senhora que o povo contava histórias que o tempo guardou. Seu nome de registro já nem importa muito, pois de Maria Cunhaú ficou conhecida por todos. Sobrinha do histórico André de Albuquerque Maranhão, vivia de arengas com o irmão, Dendé Arcoverde, herdeiro das fortunas do Cunháu.
É muito interessante como esses personagens da aristocracia açucareira do século XIX foram tratados pela memória popular e chegaram até os livros acadêmicos pelas letras de Câmara Cascudo. O intelectual era fã dessa Família aristocrática que dominou o litoral sul do Rio Grande do Norte, mas repetiu as mesmas palavras que ouviu dos populares em sua Actas Diurnas, quando tratou daqueles membros mais arquétipos.
Maria Cunhaú se tornou famosa no meio da plebe miúda pela soberba exagerada que ostentava. Dona do engenho Outeiro, terra que herdou do tio poderoso. As línguas afirmam que ela não vestia a mesma roupa duas vezes e vivia com melindres ásperos de uma entediada princesa em sua casa-grande inacessível aos pequenos. Era lá que ela judiava dos seus escravos domésticos para se divertir. Os escravos do eito não passavam nem por perto de sua macabra cozinha.
Sem preocupações profundas, ela foi avançando na idade. Nunca encontrou um varão que lhe domasse. Suas preocupações era comer e dormir sem incômodos. Em suas viagens curtas por seus domínios, seu cocheiro apanhava mais que os cavalos que puxavam a charrete. Internou-se em sua própria ignorância, vivendo isolada em seu próprio mundo.
O irmão afirmava que ela era louca e não tinha condições de administrar a propriedade que possuía. Por isso pediu na justiça o direito de posse sobre as terras da irmã. O caso fez com ela ficasse mais perturbada ainda. Dizem que ela deixava os escravos pregados pelas orelhas no portal de trás e gritava esbaforada por eles na varanda da frente.
Gostava de ser atendida, gostava de mandar e, por isso, morria de medo de perder as terras que possuía nas lamacentas várzeas de Canguaretama. Quando lembrava que podia perde tudo, se desesperava e era sua escravaria que sofria as consequências diretas. Havia choro, ranger de dentes, fogo e dor. As marcas ficavam no corpo e todos seus escravos possuíam sinais claros de suas torturas.
Ficava desesperada com a situação, mas nem seu advogado conseguia reverter o processo de perda das terras para o seu irmão. No século XIX uma mulher solteira não teria chances nos tribunais machistas e opressores. O advogado de Maria Cunhaú era Amaro Cavalcanti, um jovem muito talentoso na política, mas que via a situação de sua cliente se agravar nos tribunais.
Ele entendia bem do Direito e sabia perfeitamente que a velha perderia as terras para o irmão. Por esse motivo, ele fez um último e admirável esforço para reverter toda aquela situação adversa. Astucioso que era, foi até o engenho Outeiro e se ofereceu em casamento para a velha. Convenceu-lhe que, desse modo, ficaria como tutor legítimo dela e que, só assim, salvaria suas posses da ganância do irmão.
Ela teria aceitado sem nenhuma relutância. O advogado de fino trato agia de forma exemplar e encantadora, levando a velha ao êxtase. Ela não poderia se negar, mas se envolveu profundamente com aquele galã adorável. O trato era bem elaborado, mas dentro de um acordo simples: ele seria um marido sem exercer as funções nupciais.
Ela morrida de ciúmes e fazia sofrer as escravas jovens. Quebrava os dentes das coitadas para que não atraíssem o olhar do jovem príncipe que surgia naquelas terras. Marcou com ferro em brasa o rosto de cada uma para arrancar-lhe a beleza. Ficava admirando os presentes que recebia, espalhando vestidos sobre a cama que dormia solitária. Em seu ócio improdutivo ficava brincando com dinheiro velho, suas moedas carcomidas pela passagem dos anos.
O advogado nunca morou com a velha. Apenas esperou, pacientemente, seu falecimento para herdar a propriedade. Ficava a lhe agraciar, de longe, com presentes que ela acumulava na casa-grande do engenho. Dizem que ele foi embora para morar com a tal “Ressuscitada” no capital do império, onde viveu como um príncipe, quem sabe com as moedas que Maria Cunhaú guardou por tanto tempo.  
Esse arquétipo de mulher sádica não foi único no Rio Grande do Norte. Em Ceará Mirim, outro centro de produção açucareira, tivemos uma figura feminina que infringia os mesmos castigos físicos aos seus escravos. Em seu porão, ela sempre tinha um escravo para torturar. A senhora do engenho Timbó era tão cruel e desumana com seus escravos, que outros proprietários de engenhos e de terras se revoltaram com sua prática.
A senhora faleceu repentinamente e seu corpo se transformou em uma serpente. Seu túmulo, devido as grandes rachaduras, teria sido acorrentado para manter a serpente presa. Seu esposo, que temia sua crueldade, mudou seus hábitos com os empregados.
Maria Cunhaú foi um arquétipo entre os senhores de escravos no Litoral Sul e que encontra parâmetros em outros locais. Fruto da oralidade fantástica de um povo que contava sua versão de história como forma de resistir.